Maria Farrapo

Maria Farrapo é uma Pombagira ligada à falange de Maria Mulambo, com quem compartilha algumas semelhanças. Essa proximidade faz com que, em certos casos, sejam confundidas, embora se trate de entidades distintas dentro das linhas espirituais da Quimbanda. Segundo relatos tradicionais, Maria Farrapo teria sido uma mulher escravizada durante o período do Brasil Colônia. Assim como Maria Mulambo, desenvolveu sua força espiritual a partir dos conhecimentos adquiridos com feiticeiras africanas, com quem conviveu e aprendeu sobre o poder das ervas, da magia e da ancestralidade.

 

A Rainha dos Trapos

O nome “Maria Farrapo” significa literalmente “Rainha dos Trapos”, título que simboliza sua ligação com os marginalizados — os pobres, renegados, incompreendidos e desamparados. Por essa razão, é considerada uma guardiã dos oprimidos e desvalidos. De acordo com a tradição oral, recebeu o apelido de “Farrapo” por causa de suas vestes rasgadas e desgastadas no período em que trabalhava como mucama — termo utilizado para designar as mulheres negras escravizadas que prestavam serviços domésticos aos senhores. Sofreu inúmeras humilhações e era vista como desprovida de beleza ou valor, o que acentuou ainda mais sua dor e revolta.  

 

Entre a Vingança e a Justiça Espiritual

A história conta que, movida pelo desejo de vingança, Maria Farrapo acabou destruindo espiritualmente toda a família que a havia submetido a torturas e castigos. Sua alma, tomada pela fúria, teria enfeitiçado e corrompido os antigos senhores, levando-os à ruína e à morte. Com o tempo, tornou-se um espírito de grande poder e passou a comandar uma falange de entidades punidoras e vingativas. Apesar disso, dentro da tradição da Quimbanda, seu aspecto punitivo não é visto como maldade, mas como parte do equilíbrio natural das leis espirituais. Em casos de abusos sexuais, por exemplo, acredita-se que Maria Farrapo “corra a gira” — expressão que significa acelerar os processos espirituais — para que o agressor enfrente as consequências de seus atos, tanto no plano físico quanto no espiritual. Em situações de traição, ela pode agir por meio de punições como impotência, separações e doenças.  

 

Personalidade e Características

Irreverente, irônica e espirituosa, Maria Farrapo é frequentemente mal compreendida. Muitos acreditam que esteja sempre embriagada ou desajeitada, mas seus devotos afirmam o contrário: trata-se de uma entidade séria, objetiva e de extrema competência. É direta, observadora e costuma deixar claro se os pedidos que recebe partem de intenções justas ou egoístas.  

 

Polêmicas e Culto

Alguns estudiosos e praticantes afirmam que, em suas origens, Maria Farrapo teria sido um espírito kiumba — ou seja, uma entidade ainda presa a vibrações densas. Entretanto, segundo registros e cultos tradicionais, ao longo dos anos, ela teria evoluído espiritualmente, conquistando seu lugar entre as Pombagiras. Seu reduto espiritual é associado a locais abandonados, ruínas e lixeiras, símbolos de transformação e resistência. Ainda assim, seus trabalhos podem ser realizados em outros pontos, de acordo com a necessidade e a intenção do ritual. Embora algumas cantigas a associem a ambientes de cabaré, não há registros históricos ou lendas que confirmem que Maria Farrapo tenha sido uma prostituta em vida — característica que a diferencia de outras Pombagiras.

 

Ponto riscado

 

Cantiga

Do buraco donde eu vim, as mulheres me odeiam
Do buraco donde eu vim, os homens me desejam
Fui menina, já fui moça; hoje sou mulher
Sou Maria Farrapo, a que reina na Lixeira.

Deu meia-noite quando a lua se escondeu
Lá na encruzilhada Farrapo apareceu…
Ela vem girando, girando, girando, girando, girando
Ela vem girando, girando, girando, girando, girando
Vem dando gargalhada, Maria Farrapo já está chegando
Vem dando gargalhada, Maria Farrapo já está chegando…




Oferenda para Maria Farrapo

Oferenda prática para Pomba Gira Maria Farrapo

Materiais necessários:
✓ 1 alguidar médio
✓ 1 pano preto e vermelho
✓ 7 cigarros
✓ 1 copo de vidro
✓ 1 vela branca
✓ 1 garrafa de cachaça ou cerveja amarela
✓ Farinha de mandioca
✓ Cebolas roxas
✓ Pimentas dedo-de-moça
✓ 1 rosa vermelha

 

Modo de preparo:

1. Lave o alguidar com cachaça e forre o interior com o pano preto e vermelho.

2. Coloque a farinha de mandioca e umedeça com cachaça (ou aguardente), misturando com a mão esquerda até formar uma farofa úmida.

3. Faça um buraco no centro da farofa e coloque ali o copo de vidro.

4. Ao redor do copo, disponha sete rodelas de cebola roxa e sete pimentas dedo-de-moça.

5. Leve o alguidar a um local de ruínas ou onde haja muito lixo — ambiente associado à energia de Maria Farrapo.

6. Encha o copo com cachaça.

7. Coloque a rosa vermelha (sem o cabo) sobre o copo.

8. Acenda os sete cigarros e a vela branca (com cuidado para evitar acidentes).

9. Faça seus pedidos e saudações à Pomba Gira Maria Farrapo, com fé e respeito.




Trabalho prático para atrair sorte, energia e alegria para a sua vida

Magia de Dedicação a Maria Farrapo

Elementos necessários:
✓ Um alguidar médio
✓ Farinha de mandioca
✓ Cinco gemas de ovos
✓ Azeite de oliva
✓ Duas rosas cor-de-rosa e duas amarelas
✓ Um bom perfume
✓ Um espumante

Modo de preparo:
Coloque no alguidar as cinco gemas e o azeite de oliva. Misture bem com um pouco de farinha de mandioca, formando uma farofa levemente úmida. No centro, coloque os ovos de codorna crus e previamente lavados.
Ao redor da farofa, disponha as rosas sem os caules.

A oferenda deve ser entregue a Maria Farrapo em um campo gramado, durante um horário de intensa luminosidade solar. Chame por ela com respeito e faça seus pedidos. Em seguida, despeje o espumante ao redor e borrife um pouco do perfume sobre as flores.




Trabalho prático de magia para proteger aquelas pessoas que causam conflitos onde chegam

Esta magia é dedicada a Maria Farrapo.

Elementos necessários:
✓ Um alguidar médio ou um prato de barro
✓ Um pedaço de pano estampado, bem bonito
✓ Um peixe vermelho médio, limpo, sem escamar nem retirar as vísceras
✓ Farinha de mandioca
✓ 100 gramas de grão-de-bico cru
✓ 100 gramas de arroz com casca
✓ Azeite de oliva
✓ Mel de abelhas
✓ 14 cravos-da-índia
✓ Flores sempre-vivas (sem os caules)
✓ Um girassol
✓ Um perfume de boa qualidade

Modo de preparo:
Coloque o peixe no alguidar ou no prato (não deitado — mantenha-o na posição horizontal).
Com as pontas dos dedos, misture a farinha, o grão-de-bico, o arroz, algumas pitadas de azeite e um pouco de mel.
Faça uma farofa levemente úmida e coloque-a ao redor do peixe, de modo que ele fique firme e não tombe.
Enfeite a farofa com os cravos e as flores sempre-vivas. Coloque o girassol no centro e borrife um pouco do perfume.

Leve até uma encruzilhada ou estrada, escolha um canto bem limpo, chame por Maria Farrapo e faça seus pedidos.