Exu Sete Cruzes

Conhecido em algumas regiões como “Exu das Sete Cruzes” e nas Kimbandas que possuem egregoras cabalísticas esta entidade recebe o nome de “Merifild“.

 

Em nossa tradição não é o espírito mais indicado para ser invocado ou ser pronunciado o seu nome por pessoas que não sejam altamente preparadas, pois ele é o responsável por buscar as almas após a morte, principalmente daqueles que cometeram suicídios. O autor Aluízio Fontenelle, (já desencarnado), também desaconselha a invocação deste Exu, por ele ser ligado às torturas das almas, inclusive o mesmo afirma que foi este espírito o responsável pelos sofrimentos dos últimos momentos de Jesus Cristo na cruz.

 

Nos templos de magia, costumam recorrer a este Exu nos pedidos que sejam para que alguma pessoa tenha uma morte violenta ou para causar torturas em psicopatas, estupradores e etc. Na Kimbanda existe uma lei férrea que “quem deve paga” e aqueles que ferem também serão feridos, ou seja, quando queremos atacar quem não nos atacou, não há justiça e estamos sujeitos a receber pelo mal praticado. Reitero mais uma vez, alertando que pessoas de mente fracas não trabalhe com este Exu para justamente evitar enlouquecerem.

 

Exu Sete Cruzes é ligado ao Reino dos Cemitérios, responsável por zelar nas entradas dos cemitérios e por receber todos os espíritos de assassinos, cometedores de suicídios ou das maiores atrocidades, por isso este Exu sempre traz na sua presença as almas perturbadoras e em sofrimentos, embora não seja um dos integrantes da Linha de Omolu.

 

Por ser um Exu ligado às mortes, tem o poder de transportar espíritos ou pessoas onde quiser, podendo levá-los a lugares torturadores e fazendo lembrarem de todo mal praticado no passado.

Ponto riscado criado pelo professor Eduardo Henrique Costa.

 

Cantiga para aplicar punições

A cruz do inferno queima 🎶
E meu Exú aparece

A cruz do inferno queima
E meu Exú aparece 🎶

Laroiê Laroiê Laroiê minha Kimbanda 🎶
Exu Sete Cruzes aplica o mal a quem merece

Laroiê Laroiê Laroiê minha Kimbanda
Exu Sete Cruzes aplica o mal a quem merece 🎶

 

Cantiga para chamada

Seu Sete Cruzes é homem forte 🎶
Homem forte ele é

Seu Sete Cruzes é homem forte
Homem forte ele é 🎶

Na força do Maioral ele vem surgindo
O meu saravá pro torturador do Lúcifer 🎶

Na força do Maioral ele vem surgindo
O meu saravá pro torturador do Lúcifer 🎶

 

Cantiga pro Sete Cruzes

Exu das Sete Cruzes
Das Sete Cruzes ele é! 🎶

Carrega as Sete Cruzes,
Auê Auê para o compadre Lúcifer. 🎶




Círculo de proteção para lares

Há muitos espíritos vagantes que tentam se aproveitar para vampirizar pessoas ou atormentar lares, porém existe formas de mantê-los afastados e até mesmo neutralizar as suas visitas, segue abaixo uma receita simples.

 

Pegue um ovo cru de galinha (sem ser quebrado) e um pouco de pó de café.

 

Faça um círculo de pó de café atrás das portas de entrada na sua casa e coloque um ovo cru no meio.

 

Na Kimbanda muitas pessoas renovam a cada sete ou quatorze dias repondo outro pó de café e ovo, despachando o anterior numa boca de mata ou no lixo longe da sua casa. No Candomblé há bruxos que deixam por vinte e um dias os itens para depois despachá-los.

 

É importante a seguinte observação: caso o ovo quebre antes do período em que você realiza a troca, é sinal que alguma energia muito negativa se encontra na casa ou tentou passar pelo seu rito de proteção, nestes casos é aconselhável lavar portas e janelas com ervas preparadas e defumar o local, além de alimentar a energia do guardião do local.




Exu Tiriri é Rei!

A palavra “Tiriri” é um nome de origem Yorùbá cujas origens apontam para as terras de Oyó na Nigéria. É um dos nomes usados como forma de elogio a divindade Èṣù (Deus mensageiro, senhor dos caminhos), no Brasil ficou estabelecido pelo Candomblé como uma das qualidades (atribuições) ao Èṣù que é ligado ao Òrìṣà Ògún que é uma energia também ligado a guerra e os caminhos. Através da miscigenação e corrupção cultural e religiosa, o nome “Tiriri” foi agregado ao culto de Quimbanda (conhecido pelo Candomblé como catiços) e tornou-se popular entre os seguidores das religiões afro-brasileiras.

O significado da palavra Tiriri está intimamente ligado aquilo que é forte, podendo levar a entender que se refere à um homem forte no caminho. Não é atoa que o Exu Tiriri conhecido nos terreiros de Kimbanda por exercer seu poder de domínio nos caminhos, sendo cultuado principalmente com o objetivo de saber “caminhar” fazendo escolhas ou recebendo melhores direcionamentos para evitar tantos sofrimentos ou desencontros com o sucesso é um dos mais populares.

Esta entidade é um dos “senhores das armas”, pois é aquele que ajuda administrar uma armada do Maioral (Vossa Majestade), embora um de seus Reinos principais seja a Encruzilhada, este Exú pode responder e vir por outros caminhos, possuindo títulos correspondentes em seu nome, vejamos:

Exu Tiriri das Encruzilhadas;
Exu Tiriri das Almas;
Exu Tiriri das Matas;
Exu Tiriri do Cruzeiro;
Exu Tiriri da Praia…

Redutos: Encruzilhadas abertas e estradas de movimento, entretanto, recebe nas encruzilhadas de todos os Reinos.

Por ser um espírito que possui um completo domínio sob as linhas do tempo/espaço, permite em suas consultas fazer as pessoas refletirem sobre seus erros e poder consertá-los.
Como o Exu Tiriri é muito voltado a defesa espiritual e o contra-ataque, acaba sendo um enorme aliado em afastar todos os tipos de vícios, pois muitos deles estão na maioria das vezes ligados às obsessões.

As qualidades deste ancestral é de “um lobo em pele de cordeiro”, pois não costuma revelar tudo que sabe, é extremamente voraz e vingativo no momento de revidar feitiçaria e, quando costuma ser chamado para trabalhos de destruição sua falange fulmina com extrema rapidez. Mas deve-se ter cuidado ao pedir, porque é um espírito que só intervém se for realmente para a busca da justiça, é capaz de mostrar essa face de terrível quando constata que houve alguma injustiça. Na Umbanda alguns acreditam que Exu Tiriri pode reger os filhos de Ogum ou de Xangô, devido ser voltado a justiça e o cumprimento das leis astrais.
Embora poucos sabem desta informação, por ser um dos senhores ligado às armas, defesas e guerras, possui domínios nas artes marciais e nas forças armadas, podendo ser procurado para pedir forças durante lutas difíceis.

Segundo algumas antigas lendas, tanto o seu rosto quanto seu corpo foram mutilados devido o cumprimento de pena por crime passional.

Exu Tiriri é o protetor dos amantes e namorados, sua energia é totalmente de um conquistador, rebelde e sedutor, pode ser invocado nos trabalhos de magia que envolva ajuda em sedução e libido incluindo os casos extraconjugais.

 

 

OFERENDAS:

Esta entidade aceita como bebidas o marafo (aguardente), gin e uísque, além de conhaque (principalmente em caso de demandas). E fuma charutos e cigarros.
Existe diversas comidas que podem ser colocadas como oferendas e que já foram postadas neste mesmo site, porém vejamos mais uma diferente:

Pegue o alguidar e lave com aguardente. Ponha farinha de mandioca e misture com a sua mão esquerda tornando uma farofa um pouco úmida, em seguida adicione sete rodelas de cebola roxa em volta, ponha um pouco de pimenta de cheiro, pimenta quente (ardida) e pedaços de bacon (ou barriga de porco) fritos. Por cima, alguns terreiros costumam acrescentar sete bolinhos de carne moída mista (bovina e suína) fritos no azeite de dendê ou, um bife de fígado frito no dendê com cebolas.

É possível acrescentar na oferenda moedas douradas, chave e uma pequena corrente. E por ser um Exu extremamente namorador, algumas tradições entregam rosas vermelhas e cravos.

Embora seja mais comum por diversas entidades entre o Reino das Matas o uso de frutas para oferendas, mas pelo fato do Exu Tiriri responder também nas Matas, pode ser ofertado gomos de jaca e figos regados com licor de anis.

Objetos usados dentro das tradições para esta entidade: espadas, correntes, munições, trilho de trem, punhais, tridentes, moedas antigas, chaves usadas, cadeados, bengalas e chapéus.




Feitiço para atrair riquezas (Ideal para o final de ano)

Este é um feitiço muito prático com o Exu do Ouro para sua vida prosperar e abrir as portas da abundância.

Ingredientes:

7 pedras pequenas de pirita
7 padês de mel enrolados cada um em um morim amarelo
7 moedas douradas
7 velas amarelas
30g de erva abre-caminho (frescos)
7 folhas da fortuna
Essência de alfazema.

Modo de preparo:
Pegue 2 litros de água e coloque dentro as ervas e folhas macerando bem com a mão direita, deixe as sete pedras de pirita na água (elas devem estar lavadas com água e sal grosso antes), ponha no sol ou ar livre pelo mínimo de 3 horas. Logo após, coe o banho, coloque sete gotas de essência de alfazema, e retire as pedras, ponha o líquido dentro de uma garrafa e reserve-a.

Vá para uma local bem próspero pela madrugada, a cada esquina que passar pegue uma vela e passe em seus pés e mãos e acenda oferecendo ao Exu do Ouro, dizendo:
“Exu Koba Koba, companheiro e amigo fiél, que está aqui e esta lá em todo, venha ao meu chamado Exu do Ouro, traga riquezas e prosperidade para minha vida”. Abra um dos morins que esteja com padê de mel e deixe ao lado da vela (um pouco afastada para não pegar fogo no pano), passe a pedra pirita pelos seus pés e mãos e coloque em cima do padê, junto com uma moeda.
Percorra sete encruzilhadas fazendo o mesmo ato e na última ao terminar, pegue uma garrafa com o banho e vire ela da cabeça para baixo pedindo sorte, abertura de caminhos e muita prosperidade.

 

Cantiga

Eu vou chamar um Exú que vai me ajudar
Exu do Ouro vem pra trabalhar
Eu vou chamar um Exú que vai me ajudar
Exu do Ouro vem pra trabalhar

Exu do Ouro corre corre encruzilhadas
Traga agora agora agora a prosperidade que faltou
Exu do Ouro corre corre encruzilhadas
Traga agora agora agora a prosperidade que faltou

 




Banho para despertar romantismo

image_pdfimage_print

Este banho é bastante relaxante e ao mesmo tempo é ideal para as mulheres que desejam ativar energias que lhe ajudam a proporcionar romances.

Ingredientes:
1 litro de vinho tinto suave
500ml de vodka
1 essência aromática de cerejas
7 gotas de mel-de-abelhas
7 folhas de canela (caso não tenha pode ser em pau).

Modo de preparo:
Ponha tudo dentro de uma garrafa grande, de preferência que seja de vidro (podendo pintá-la ou cobrir com um pano vermelho, podendo ser até algum que tenha sido ofertado a Pomba Gira). Adicione entre 14 a 21 gotas de essência de cereja, mantenha todos os itens dentro da garrafa por 7 dias, depois poderá utilizar este banho do pescoço para baixo.

Recomendamos que antes de utilizá-lo, é viável arriar um uma oferenda para Pomba Gira, exemplo:

Caso seja uma mulher de vinte e dois anos de idade e tenha mais afinidade com a Pomba Gira Menina, poderá preparar um padê de bombom e por uma rosa vermelha por cima, borrifando o aroma de uma perfume doce. Prepare o banho e deixe ao lado da sua oferenda que poderá está de frente pro assentamento da Pomba Gira ou próximo ao altar, pois isto ajuda a encantar e fazer com que o próprio ancestral direcione energias e impulsione o efeito.




Prática para impedir maus espíritos na casa ou nos quartos

Primeiramente é necessário que todos os integrantes tomem banhos de descarrego, pois possa ser que a energia individual esteja atraindo más companhias e, aquele que for fazer todo o ritual deve tomar banho de descarrego novamente ao terminar.

Faça um chá de folhas de bambuzais e quando estiver morno, use para lavar o chão da casa, portas e janelas e todas formas de entradas, para não ficar um mal odor no local, ao terminar poderá borrifar essência de alfazema ou flores de laranjeira.

Pegue galhos de arruda e varetinhas de bambuzais ponha em formato de cruz amarradas por palha da costa e deixe do lado de fora de cada porta e janela, caso seja apartamento, pode ser pelo lado de dentro, depois de três dias despache na boca de mata, levando sete moedas e oferecendo pro Exu das Matas pedindo que leve todos os males embora, e evite o mesmo local por 21 dias.




Exu do Lodo

Para compreendermos melhor sobre esta entidade, é necessário refletir sobre o lodo… é uma das formas populares de designar todos os sedimentos rochosos cobertos pelas águas dos rios, lagos, pântanos e mar. É comum a associação do lodo com a lama que é uma mistura pastosa da terra com água, porém, por ser rico em alguns tipos de minerais e outros componentes naturais, pode servir de habitat para várias espécies, como por exemplo, o saltador-do-lodo. No Brasil é comum encontrar o lodo nas redes de esgotos.

Imagem: Freepik.

O lodo é formado em ambientes úmidos que representam as impurezas, ou seja numa cachoeira onde a água corre livremente não há lodo, só há lodo onde à infiltração e umidade constante que não é limpo (tais lugares com energias negativas, essas energias se assemelhariam ao lodo). O Exu do lodo entraria nesses lugares “carregados” e faz a limpeza dessas energias, tirando o lodo ruim (energia ruim) e restaurando o lodo bom e limpo (energia positiva). Costuma ser invocado nas correntes espirituais para carregar consigo os entraves materiais que poluem seus adeptos.

Esta entidade pertence ao Reino das Águas. E quando paramos para pensar em água dentro da Kimbanda, precisamos refletir que é um elemento receptivo e negativo, associada ao magnetismo e à atração. As águas são conhecidas a nível universal na magia como “unificadora dos mundos”, pois é encontrada em diversas dimensões e em muitos rituais é usada para abrir a face para o oculto, alguns ocultistas fazem ritos para lavar as vistas proporcionando adivinhações e visões. Por ser unificadora, tem fortes associações com o Reino dos Mortos e com o subconsciente. A terra também possui polaridade negativa e densidade superior aos demais elementos, o que lhe garante o poder das formas. É um elemento limitador e aprisionador.

De forma esotérica os aspectos dos dois elementos, entendemos, que o lodo nada mais é do que a “terra destruída” (materialidade) coberta de água onde o ventre das formas é esterializado. Os dois elementos unidos são parte da alquimia da natureza. Espiritualmente é o local para onde os espíritos chafurdados na materialidade são atraídos.

Ponto riscado usado para socorro, resgatar ou retirar as pessoas das situações difíceis, tanto no âmbito material, como, emocional e espiritual.

Exu do Lodo costuma trabalhar para as energias paradas e ajuda em processos sem andamentos. Sua grande força está ligada a união das águas com a terra e no limo das pedras, onde é formado o lodo. Pode ajudar em limpezas de descarregos e principalmente em doenças de pele. Também vibra na falange de Exus ligados as Almas. Na Quimbanda ele pode proporcionar a compreensão sobre o desapego material e a necessidade de um constante embate contra o sentimentalismo e o medo do invisível. Por ser um espírito muito antigo e ligado à um lado da natureza mais silencioso, em suas manifestações se apresenta como um grande sábio, porém, de poucas palavras.

Os espíritos da linha das almas, costumam se apresentar curvos e com dificuldades, pois tem uma energia pesada e a maioria usam aparências de velhos feiticeiros. Praticamente todos os espíritos desta linha foram, padres, bispos, bruxos, magos ou feiticeiros em suas vidas na terra. Quando o Exu do Lodo se manifesta (por intermédio de um médium), ele está agachado como se tivesse dificuldade para se levantar, mas na realidade se locomove com rapidez.

Esta entidade trabalha na transmutação de energias, transformando o lado negativo em positivo. Motivo de usar muito a cor preta que representa a transformação. Em sua manifestação, pode trazer chuvas consigo. É a resposta que ele está atento e presente. Ele se chama lodo pois representa a força da vida mesmo em meio as dificuldades, ou seja, que mesmo em meio a podridão do mundo esse Exu tem boa energia e também tem, outro significado, que quando o consulente estiver no “lodo” esta entidade vai tira-lo de lá, representa tanto a força do Exu quanto o estado de espirito em que se encontram as pessoas que pedem auxilio a ele.

Foto: Imagens Bahia.

Nas imagens usadas para Exu do Lodo é de um homem, agachado como se tivesse dificuldades em se locomover. Traz a representação de um campo extremamente negativo em que exerce suas funções onde os homens não poderão contar mais com a locomoção, o equilíbrio e a sensação de materialidade.

Dentro da feitiçaria há um ditado que costumam dizer que Exu do Lodo, nas magias para fins destrutivos, afunda a vida de suas vítimas, carregando-as para o lodo/lama. Esse Exu usa correntes negativas e destrói a vida material, arrancando das suas vítimas a estabilidade financeira. Em contrapartida, pode atuar retirando uma pessoa desse mau estágio e fornecer um caminho, tirando da lama e dando a oportunidade de ser acompanhada possivelmente por uma outra entidade.

Devido aos conceitos magnéticos, a relação desta entidade com os mortos está vinculada aos presídios astrais onde os devedores e escravos são esgotados e escravizados. Uma de suas importantes funções é na captura das almas que são atraídas para esses campos astrais.

Há alguns mestres de Kimbanda que afirmam que esta entidade tem afinidade com os Exus, Maré, Sete Infernos, Exu Rei da Praia, Exu Sete Correntes, Capa Preta, Sete Infernos e até Tata Caveira.

Ponto riscado usado em trabalhos de limpeza energética. Traz um enorme significado esta simbologia, pois demonstra a plenitude de seus poderes. Usado nos trabalhos de feitiçaria que visam erguer ou afundar as pessoas, bem como, atraí-las para o reino do Lodo.

Nas praias, rios, ou cachoeiras – devemos pedir licença ao Exu do Lodo, pois sempre há lama nos arredores.

PONTO CANTADO PARA EXU DO LODO

QUANDO CHEGA MEIA-NOITE 🎶
EXÚ DO LODO NA UMBANDA CHEGA
ELE VEM DO CEMITÉRIO
VAI SAIR NA LUA CHEIA 🎶

QUANDO CHEGA MEIA-NOITE 🎶
EXÚ DO LODO NA UMBANDA CHEGA
ELE VEM DO CEMITÉRIO
VAI SAIR NA LUA CHEIA 🎶

EXÚ DO LODO É 🎶
MEU COMPADRE NA UMBANDA
EXÚ DO LODO VEM
VEM ALEGRAR A NOSSA BANDA 🎶

EXÚ DO LODO É 🎶
MEU COMPADRE NA UMBANDA
EXÚ DO LODO VEM
VEM ALEGRAR A NOSSA BANDA 🎶

 

REFERÊNCIA:
COPPINI, Danilo, Quimbanda – O Culto da Chama Vermelha e Preta. 4.ed. São Paulo: Via Sestra, 2023.




Influências literárias na Kimbanda

A Kimbanda é uma tradição que frequentemente se torna alvo de polêmicas entre sacerdotes e praticantes das matrizes afro-brasileiras, sobretudo em relação às suas práticas e origens. No entanto, é impossível ignorar o quanto determinadas interpretações sobre ela foram moldadas pela literatura brasileira ao longo do século XX. Esta matéria busca esclarecer alguns pontos históricos e refletir sobre até que ponto a imagem popular da Kimbanda corresponde, de fato, à sua realidade.

Texto • Prof. Eduardo Henrique Costa

Começando pelo nome

Kimbanda e Umbanda possuem diferenças em suas práticas e estruturas religiosas, mas compartilham um princípio essencial: a busca pela cura e pelo equilíbrio espiritual. A própria palavra “Kimbanda” está historicamente associada à figura do curandeiro, do sacerdote que trabalha com práticas espirituais voltadas ao cuidado da comunidade.

Na Umbanda, esse mesmo princípio é facilmente observado dentro dos terreiros. Defumações, passes espirituais, benzimentos e trabalhos energéticos possuem como finalidade restaurar a harmonia física, emocional e espiritual. Em muitos aspectos, tais práticas se aproximam de conceitos presentes em terapias energéticas modernas, como o Reiki, por exemplo.

Apesar dessa riqueza simbólica e espiritual, a Kimbanda acabou sendo conhecida mundialmente, de maneira equivocada, como um “culto de magia negra”. A definição carrega uma ideia automática de maldade e destruição, algo que não se sustenta quando observamos a prática cotidiana dentro dos terreiros.

Se a Kimbanda fosse essencialmente maléfica, por que nela também existem caboclos, pretos-velhos e entidades voltadas à cura? Como explicar relatos de Exus auxiliando pessoas em enfermidades, conflitos familiares e desequilíbrios espirituais?

A separação radical entre Umbanda e Kimbanda nasceu muito mais de construções sociais e morais do que de fundamentos espirituais. Com o passar do tempo, consolidou-se a ideia de que um umbandista não poderia ser também um kimbandeiro, como se fosse impossível transitar entre diferentes formas de espiritualidade sem cair em uma divisão simplista entre “bem” e “mal”.

Esse pensamento, no entanto, ignora um ponto fundamental: tradições religiosas não são responsáveis pelo caráter individual de seus praticantes. A existência de pessoas mal-intencionadas não transforma automaticamente uma religião em algo perverso — da mesma forma que códigos morais elevados jamais impediram completamente a existência de indivíduos de má conduta em outras religiões.

A chamada “guerra entre o bem e o mal” reflete muito mais disputas humanas, ego e arrogância do que qualquer conflito espiritual real. A ideia de que entidades da Umbanda “lutam” contra entidades da Kimbanda demonstra desconhecimento sobre a complexidade das religiões afro-brasileiras. Em qualquer tradição voltada à cura espiritual, podem existir práticas de caridade, acolhimento e auxílio; tudo depende muito mais da consciência do praticante do que da linha espiritual em si.

 

“Olha a macumba aí!”

Para compreender os primeiros conceitos ligados às religiões afro-brasileiras, é necessário citar uma figura fundamental: Arthur Ramos.

Arthur Ramos (1903 à 1949).

 

Médico psiquiatra, antropólogo e um dos pioneiros no uso da psicanálise para investigar a cultura brasileira, Arthur Ramos realizou estudos detalhados sobre a chamada “macumba”. Em suas pesquisas de campo, observou que não existia apenas uma única prática religiosa, mas diversas linhas e manifestações espirituais, entre elas a Umbanda e a Kimbanda.

Nesse contexto, torna-se importante compreender que “macumba” não era originalmente um termo associado à maldade. Tratava-se de uma designação genérica utilizada para diferentes rituais religiosos praticados por africanos escravizados, seus descendentes e comunidades negras urbanas.

Essas práticas possuíam elementos em comum: estados de transe, danças, cantos, instrumentos musicais, palmas e rituais coletivos voltados à cura física, psicológica e espiritual. O elemento catártico sempre esteve profundamente presente nessas tradições.

Com o tempo, porém, ocorreu uma transformação significativa. À medida que a Umbanda começava a se estruturar como religião organizada, setores da classe média passaram a exercer forte influência sobre ela. Muitos desses grupos buscavam afastar a religião de tudo aquilo que pudesse ser visto como “primitivo” ou excessivamente africano aos olhos da sociedade cristã da época.

Foi nesse contexto que surgiram frases emblemáticas como: “A Umbanda pratica o bem e a Kimbanda pratica o mal”.

Essa separação serviu, em grande medida, para tornar a Umbanda mais aceita socialmente, aproximando-a de elementos do cristianismo e do espiritismo kardecista, ambos muito mais bem vistos pelas elites urbanas brasileiras. Enquanto isso, a Kimbanda permaneceu associada aos aspectos considerados “densos”, “afrontosos” ou “perigosos”.

A Umbanda reduziu gradativamente o espaço dedicado ao culto de Exus e Pombagiras, enquanto a Kimbanda aprofundou essas práticas. Isso, porém, não significa que a Kimbanda tenha permanecido totalmente livre de influências europeias e cristãs. Pelo contrário: parte das interpretações demonizantes sobre Exu surgiu justamente desse contato cultural.

Também é impossível ignorar a dimensão racial presente nesse processo. Durante muito tempo, a ideia de “bem” esteve associada à branquitude, enquanto tudo aquilo ligado ao negro era visto como perigoso, demoníaco ou inferior.

Basta observar imagens religiosas comercializadas até hoje em algumas lojas de artigos espirituais: divindades africanas frequentemente aparecem embranquecidas. O próprio imaginário popular cristão reforçou a ideia do “santo europeu”, de pele clara e cabelos suaves, enquanto figuras negras eram associadas ao mal.

Diferentemente da Umbanda, a Kimbanda resistiu mais intensamente às pressões cristãs. Por isso, até hoje é frequentemente tratada como algo obscuro ou demoníaco — muitas vezes chamada simplesmente de “linha de esquerda”.

Entretanto, conceitos como “direita” e “esquerda” não são leis espirituais absolutas. São classificações humanas. Um preto-velho pode atuar tanto na chamada direita quanto na esquerda, dependendo da tradição e da interpretação adotada pelo terreiro.

Essa lógica de divisão também influenciou outras manifestações religiosas brasileiras, como o Catimbó e a Jurema Sagrada, além de tradições com influências xamânicas que passaram a ser classificadas como “de direita” ou “de esquerda” conforme se aproximavam ou se afastavam do cristianismo.

 

Para visualizar em um melhor tamanho, clique em cima da imagem.

Disponível em: Google. Acesso: 7/10/2023.

 

A construção literária da “Kimbanda do mal”

Expressões populares como “se a macumba fosse boa, não teria esse nome” revelam muito mais desconhecimento histórico e linguístico do que qualquer análise séria sobre as religiões afro-brasileiras.

Mas afinal: quem ajudou a consolidar a ideia da Kimbanda como prática maléfica?

Imagem: Extraida da internet. Conteúdo do ano de 1941.

Segundo diversos estudos, um dos principais nomes nesse processo foi Lourenço Braga. Em 1941, durante o Primeiro Congresso Espírita de Umbanda, Braga apresentou a ideia de que os trabalhos benéficos pertenciam à Umbanda, enquanto os maléficos estariam ligados à Kimbanda.

No ano seguinte, publicou o livro Umbanda (Magia Branca) e Quimbanda (Magia Negra), obra que se tornou uma das principais responsáveis pela popularização dessa divisão moral entre “bem” e “mal”.

Antes dele, o autor Noel de Souza já utilizava conceitos semelhantes em textos jornalísticos sobre as “sete linhas da Umbanda”, por volta de 1938.

Livro de Lourenço Braga.

 

O problema é que essas interpretações acabaram reduzindo tradições extremamente complexas a categorias simplistas e moralistas.

Na prática, o que muitos autores da época criticavam não era necessariamente a espiritualidade em si, mas o fato de determinados frequentadores procurarem os terreiros para resolver questões materiais, amorosas ou financeiras.

 

Exu, diabo e o imaginário cristão

Outro nome decisivo nesse processo foi Aluizio Fontenelle, autor do livro Exu, publicado em 1952.

Na obra, Fontenelle comparava entidades cultuadas na Kimbanda aos espíritos da Goetia e associava Exu diretamente à figura cristã do Diabo: um ser com chifres, rabo e natureza maligna.

Livro lançado pela editora Espiritualista no ano de 1975.

 

Além disso, negava até mesmo a origem africana da palavra “Exu”, criando teorias sem fundamento histórico ou linguístico. Algumas dessas ideias afirmavam que o nome teria origem em idiomas bíblicos secretos ou em línguas supostamente divinas.

Infelizmente, muitas dessas teorias continuam circulando até hoje.

Em 2018, durante uma conversa com um homem que se apresentava como “mestre em Kimbanda”, ouvi a afirmação de que “Exu” estaria presente nas escrituras hebraicas. Como pesquisador da língua hebraica, estranhei imediatamente a declaração, já que não existe qualquer base acadêmica séria para essa associação.

Grande parte dessas interpretações nasceu justamente da mistura entre misticismo popular, demonologia cristã e desconhecimento das raízes africanas das religiões afro-brasileiras.

O resultado foi a consolidação de um imaginário no qual muitos passaram a acreditar que cultuavam literalmente o Diabo dentro da macumba.

Isso não significa condenar aqueles que cultuam figuras associadas ao satanismo ou ao luciferianismo. A questão central aqui é compreender historicamente como determinadas ideias foram incorporadas à Kimbanda ao longo do tempo.

O preconceito racial também permanece profundamente ligado a essas construções simbólicas. Não por acaso, personagens negros do folclore brasileiro, como o Saci-Pererê, frequentemente foram associados ao Diabo no imaginário popular.

 

Sincretismo, identidade e confusão religiosa

Fontenelle chegou a afirmar que Exu seria o responsável pelo pecado original de Adão e Eva, além de relacionar entidades da Kimbanda à rebelião de Lúcifer. Essas ideias influenciaram diversos autores posteriores e estimularam o sincretismo entre Exus e daimons da Goetia.

No entanto, afirmar que Exu é um demônio é tão reducionista quanto dizer que Ogum é literalmente São Jorge. São aproximações simbólicas, não equivalências absolutas.

O sincretismo, por si só, não é necessariamente negativo. O problema surge quando diferentes tradições passam a ser tratadas como se fossem exatamente a mesma coisa, apagando suas origens culturais e espirituais.

E quanto à chamada “Kimbanda Luciferiana”?

A palavra “Lúcifer”, em sua origem latina, significa simplesmente “portador da luz”. Em diferentes épocas e culturas, o termo foi utilizado de maneiras variadas, inclusive como nome próprio.

Muitas vezes, conceitos relativamente simples acabam sendo envoltos em mistificações exageradas, alimentadas pelo medo, pelo preconceito e pela desinformação.

 

Conclusão

A história da Kimbanda mostra que grande parte de sua reputação negativa não nasceu necessariamente de suas práticas originais, mas das interpretações construídas por autores, setores religiosos e visões racistas da sociedade brasileira ao longo do século XX.

Mais do que uma discussão sobre “bem” e “mal”, o debate revela disputas culturais, raciais e religiosas profundamente enraizadas na formação do Brasil.

Entender a Kimbanda exige ir além dos estereótipos. Exige pesquisa, contextualização histórica e, acima de tudo, disposição para compreender tradições afro-brasileiras sem reduzi-las a caricaturas criadas pelo medo ou pela intolerância.

 




A Linha dos Caboclos Quimbandeiros e sua ligação com o Catimbó

A Linha dos Caboclos Quimbandeiros é uma das mais profundamente ligadas ao Catimbó — tradição espiritual de raízes indígenas e afro-brasileiras. Não é por acaso que muitas cantigas, lendas e fundamentos demonstram essa forte aproximação entre as duas práticas.

Essa linha é formada por espíritos de antigos índios americanos que, em vida, foram grandes feiticeiros, curadores e guerreiros. São reconhecidos por seu vasto conhecimento sobre a medicina da floresta e os mistérios que envolvem as ervas, as pedras e os elementos naturais das matas.

 

Imagem: Lokis Gezüch – Emil Doepler.

Um sonho e a revelação simbólica

Em 2017, enquanto criava conteúdos sobre os Exus que compõem essa linha, tive um sonho marcante. Nele, atravessava um povoado de guerreiros indígenas quando, de uma grande árvore, descia uma serpente idêntica à da imagem acima.

O curioso é que, tanto eu quanto os indígenas do sonho, saudavam e reverenciavam a serpente como uma divindade. Mais tarde, ao pesquisar sobre o animal, descobri que era a cobra-cainana — exatamente igual à vista em sonho. O episódio foi interpretado como um sinal da presença de um espírito encantado da floresta, identificado com as entidades conhecidas como Exu Cainana e Exu Cobra, entre outros nomes ligados aos elementos naturais.

 

Vozes ancestrais e mistérios das matas

Muitos espíritos dessa linha apresentam voz grave e gutural durante as manifestações espirituais. Quando incorporados em médiuns, é comum misturarem palavras em línguas nativas com o português regional. São entidades reservadas, que não gostam de ser observadas de perto e evitam o uso de palavreado vulgar, preservando uma postura respeitosa e serena.

Existe um equívoco frequente entre os iniciantes: acreditar que entidades com nomes de animais são literalmente representações dessas criaturas. Na verdade, os nomes expressam a ligação espiritual e simbólica com o animal, refletindo seu comportamento, poder e essência. Exemplos dessa simbologia são Exu Pantera Negra, Exu Cobra e Exu Cainana.

Essas entidades são consideradas especialistas em trabalhos de cura, proteção e desobsessão espiritual, atuando na defesa dos caminhos e na restauração da harmonia entre corpo e espírito.

Entidades que compõem a Linha dos Caboclos Quimbandeiros

A seguir, a descrição das principais entidades que integram essa poderosa corrente espiritual dentro da Kimbanda:

 

• Exu Pantera Negra (Chefe da Linha)

Símbolo de força e justiça, está ligado às guerras espirituais e à disciplina. Na Linha dos Caboclos, é uma entidade extremamente respeitada. Muitos de seus subordinados aceitam oferendas semelhantes às de seu chefe, que valoriza a retidão e o equilíbrio entre o bem e o rigor.

 

• Exu Sete Cachoeiras

Conhecido cabalisticamente como Khil, é o quarto comandado do Exu Calunga. Sua atuação é associada às forças das águas e das cachoeiras, e acredita-se que seja responsável por abalos sísmicos no plano espiritual. Aprecia charutos pretos e tem como oferenda favorita a galinha-d’angola recheada com farofa de azeite-de-dendê.

 

• Exu Tronqueira

De nome cabalístico Clistheret, é o sexto comandado do Exu Calunga. Atua como guardião das estradas e dos caminhos, protegendo fronteiras espirituais e físicas. É conhecido por influenciar a troca do dia pela noite, especialmente entre jogadores e boêmios. Dentro da Kimbanda, é invocado para proteger terreiros e templos.

 

• Exu das Sete Poeiras

Cabalisticamente chamado Silcharde, ocupa o sétimo posto sob o comando de Exu Calunga. Seu poder desperta a imaginação e conduz visões espirituais relacionadas aos reinos animais. É o guardião das trilhas, matas e becos, e manifesta-se como um duende de roupagem cinza-escuro.

 

• Exu das Matas

Possui o nome cabalístico Hicpacth e ocupa o nono lugar entre os comandados de Exu Calunga. Atua nos trabalhos realizados nas matas e é procurado em casos amorosos, especialmente quando se deseja o retorno de uma pessoa amada. Está intimamente ligado à natureza e às forças da terra.

 

• Exu das Sete Pedras

Conhecido pelo nome cabalístico Humots, é o décimo comandado do Exu Calunga. Considerado um grande mago da magia universal, é responsável por conhecimentos ligados à Alta Magia, aos tarôs, signos zodiacais, calendários esotéricos, numerologia e simbologias ocultas. Possui grande poder de transmissão e comunicação espiritual.

 

• Exu do Cheiro (ou Exu Cheiroso)

Seu nome cabalístico é Aglasis, e ele comanda uma falange composta por mais de 49 Exus. Seu nome vem da forma singular como se manifesta, exalando aromas agradáveis ou desagradáveis, conforme o tipo de trabalho realizado. Costuma se apresentar em forma humana, envolto por uma camada fluídica. Pertence à Linha de Omolu e é supervisionado por Exu Caveira. Recebe oferendas preferencialmente em jardins ou locais floridos.

• Exu Pedra Negra

De nome cabalístico Claunech, é o sexto comandado de Exu Calunga (Sirach). Aparece sob a forma de um cavalheiro elegante e atua especialmente em questões financeiras, sendo protetor da riqueza e dos que enfrentam dificuldades econômicas. Também é conhecido por ajudar na descoberta de tesouros ocultos. Em oferendas, aprecia vinhos tintos com mel e frutas escuras, como o jamelão.

 

• Pomba Gira da Figueira

Esta entidade lidera uma legião de espíritos femininos antigos, que viveram há milênios na Terra e alcançaram alto grau de discernimento espiritual. É considerada a protetora das raízes do culto, responsável por zelar pela tradição e pela força ancestral feminina dentro da Kimbanda.

Conclusão

A Linha dos Caboclos Quimbandeiros representa um elo profundo entre a espiritualidade ancestral, a força da natureza e a sabedoria mística. Suas entidades refletem o equilíbrio entre poder e serenidade, conhecimento e mistério, reafirmando o papel dos povos indígenas e afro-brasileiros na formação das tradições espirituais do país.

 




Exu Cainana

Esta entidade possui origem na cultura indígena brasileira, sendo aquele que é meio serpente e meio homem. O culto a este espírito se deu dentro da Kimbanda com o surgimento da Linha dos Caboclos Kimbandeiros, suas origens está ligada a lenda dos filhos gêmeos da serpente boiçú, que nos aponta um certo direcionamento do porquê na cantiga das mais conhecidas deste Exú, cita “Exu Cainana, que te matou Cainana?”, é um conto muito antigo da região Amazonas no território brasileiro, vejamos:

“Há muito tempo atrás quando os deuses indígenas ainda reinavam nesta terra, o maior entre eles criou três espiritos que tinham a forma de serpentes. Esse deus se chamava Yamandú.
E era ele que governava sobre todas as divindades. As três serpentes sagradas eram Boiçú (a cobra grande), Boiúna (a cobra negra) e Boitatá (a cobra de fogo).
 As três eram muito temidas pelos índios, pois eram terríveis.
Um dia a serpente Boiçú estava nadando nas águas de um rio quando viu próximo a margem uma belíssima índia que se banhava. Boiçú tinha o hábito de engolir todos os homens que encontrava, mas a Índia era tão bela que ele se apaixonou.
Boiçú usou seus poderes para se transformar em um homem e a beleza de sua forma humana era tão diferenciada devido ao encanto que a índia quando o viu também se apaixonou.
Ela tanto falava com o homem, mas ele não falava nada. Apenas a olhava com uma expressão de desejo no olhar.
 Boiçú e ela se amaram naquele local, mesmo estando nas águas do rio. Após terem se envolvido sexualmente, o feitiço se desfez e o homem voltou a sua forma de serpente.
A índia quando percebeu que estava abraçada a uma serpente, ficou assustada e desnorteada, desesperada correu para longe, voltando para sua aldeia.

 Dias depois ela descobriu que estava grávida e como ela era jovem, não teve coragem de contar para os seus familiares sobre o que havia ocorrido.
Com o passar dos meses a barriga cresceu e a aldeia inteira quis saber quem era o pai da criança. Mas ela se negava a falar.
 Foi então, que chamaram o Pajé para falar com ela. Como ele era um homem iniciado numa magia muito antiga, usou de seus meios para fazer ela dizer a verdade.
O Pajé ficou muito preocupado quando soube que ela estava grávida da serpente Boiçú. Ele acompanhou toda a gestação usando de sua pajelança para apaziguar os espíritos que estavam crescendo dentro do útero da jovem.
 No dia do parto houve uma surpresa, não haviam crianças, o que saiu de dentro dela foram duas cobras: uma branca (macho) e uma preta (fêmea).
O Pajé quando viu a índia na esteira e as cobras no chão diante das pernas que estavam abertas da mãe, reparou que elas rastejavam sem enconstar com as cabeças no solo, e por isso as chamou de “Boi-Caninana”, que significa “serpente que tem a cabeça erguida”.
A índia então as batizou de Caninana. Ela manifestou o desejo de ficar com as duas Caninanas, mas o Pajé a alertou que elas teriam o caráter de Boiçú e que era muito perigoso ficar com elas na aldeia.

A índia muito triste, foi até um rio e deixou as duas na margem.
O Pajé realizou feitiços para fazer as serpentes se afastarem e elas foram embora. O tempo passou e elas cresceram, ficaram gigantescas do tamanho do pai Boiçú. E assim como ele, as duas cobras tinham o poder de se transformar em gente.
Eles então se transformavam e iam para as festas nas aldeias, além de visitar os povoados dos homens brancos.

Por viverem muito entre esses homens brancos, a cobra macho recebeu deles um nome português de ‘Norato’ e a fêmea de ‘Maria’. Maria Caninana e Norato Caninana.

Eles dois eram como unha e carne, viviam juntos. Norato era um galante, ele amava se transformar em gente para seduzir as moças. Diferente da Maria que era perversa, em forma de cobra ou de mulher, ela só fazia maldades.
Quando ela estava em forma de cobra matava os bichos da floresta, os peixes do rio, virava as embarcações e engolia os pescadores.
Quando estava em forma de mulher, seduzia os homens e os levava para o matagal, onde os matava ou ia para o rio onde os afogava.

Norato amava Maria, mas ele mesmo tinha medo dela. Ela fazia coisas monstruosas, maldades inimagináveis com todas as criaturas que cruzavam seu caminho, herdando o lado monstruoso de seu pai, diferente que Norato que ficou com lado mais sedutivo e de desejos.

Um dia Norato tomou coragem e quando Maria Caninana estava dormindo em forma de cobra, ele a matou.
Foi o único jeito que ele achou para parar os terríveis massacres.
Maria Caninana deixou sua forma física e se transformou em um espírito encantado.
 Norato seguiu sozinho com uma meta na cabeça de querer deixar de se cobrar para virar homem para sempre. Toda vez que ele se transformava em homem, ele deixava o seu corpo de serpente dormindo na margem do rio e seguia em forma humana para os festejos, porém ele só podia ser homem durante a noite.

Norato tomou coragem e voltou a aldeia de sua mãe, durante uma madrugada, ele procurou o Pajé e perguntou a ele como fazer para abandonar a sua forma de Cobra Caninana.

O Pajé consultou os espíritos e revelou que havia um rito bem simples, Norato devia pedir para alguém ir até seu corpo de serpente e colocar leite dentro da boca, depois cortar a pele da cobra, o suficiente para fazê-la sangrar.
Norato foi até sua mãe e implorou a ela para ir no rio fazer o rito, ela aceitou ajudar e foi, mas quando viu a cobra gigantesca, não teve coragem de se aproximar e desistiu.
Ele passou então a ir todas as noites nas aldeias e nos vilarejos para pedir ajuda para suas muitas namoradas, mas nenhuma delas teve coragem.
Para sua sorte, ele conheceu um homem muito valente.
Norato era tão belo que até os homens o olhavam de um modo diferente.

Esse homem disse a ele que teria a coragem para fazer o rito, e ele fez!
Ele jogou leite na boca da cobra e a cortou com um facão.
O corpo da cobra pegou fogo e desapareceu, Norato se tornou humano.
Ele viveu a sua vida cheia de amores e de festas, até que morreu na sua fase de idade avançada.

Quando morreu se tornou um espírito encantado e voltou para junto de Maria.
São uma dupla encantada, Maria Caninana e Norato Caninana.”

Nas regiões sudeste do Brasil, o nome Caninana virou “Kainana”, Maria, a Pombagira Kainana e Norato, o Exú Kainana. Esta entidade é um Exu dos tempos antigos, possuindo grandes poderes espirituais. Protetor dos caminhantes, dos viajantes, daqueles que trabalham nas estradas, e inimigo das desigualdades sociais. Grande amigo dos que procuram nas necessidades, a maioria dos Exus das florestas, são espíritos muito antigos, que não gostam muito de barulhos e a maioria é de pouca conversa, não gostando de ser chamado por diversas vezes a virem em terra (incorporar). Segundo o Mestre de Kimbanda Alberto Júnior, Exu Kainana ou Cainana, teria uma total ligação com o Exu Cobra que é um dos comandantes das falanges dos espíritos que se encantam em cobras.

 

🎵 PONTOS PARA EXU CAINANA EM DIFERENTES VERSÕES

👉 VERSÃO 1

Exu Cainana, quem te matou Cainana? (2×)
Foi seu Tranca-Ruas, foi seu Marabô, foi Exu do Lodo
Cainana, mas quem te matou?
Exu Cainana, quem te matou Cainana? (2×)

OBS: Nesta primeira versão costuma ser citado diversos Exus pertencentes ao terreiro.

 

 

👉 VERSÃO 2

Exu Cainana, quem te matou, Cainana? (×2)
Na beira do rio, Cainana
Alma já minou, Cainana
Exu Pantera, Cainana, ele não bambeia!
Exu Cainana, quem te matou, Cainana? (×2)…

👉 VERSÃO 3

Exu Cainana, quem te matou Cainana? (×2)
Eu tava na beira do rio, Cainana
Uma cobra me mordeu, Cainana
Eu chamei Seu Exu Cobra, Cainana
Ele é grande amigo meu…

Exu Cainana, quem te matou Cainana? (×2)
Eu tava na beira do rio, Cainana
Uma cobra me mordeu, Cainana
Eu chamei Seu Exu das Matas, Cainana
Ele é grande amigo meu…

Essa cobra é Cainana (×2)
Porque teus pés não me engana
Eu fui no alto da serra, na serra do Amazonas,
Lá no alto eu encontrei, eu avistei Cainana
Essa cobra é Cainana (×2)
Porque teus pés não me engana.

Estatueta minoica da “Deusa das Serpentes”, 1600 a.C., Museu Arqueológico de Heraclião.

CRÉDITOS:

Artistas da imagem destaque: Marcio Takara e Marcelo Maiolo.